RELATO DO CAMINHO DOS ANJOS: DESAFIO NOS CÉUS Por: Carlito e Oswaldo
O planejamento dessa cicloviagem teve início há uns três meses.
Ao dar entrada no portal do Caminho dos Anjos, de criação e responsabilidade do Alexandre Maciel Gaspar - Ale, constatamos que a região seria um grande desafio para nós: Carlito e Oswaldo, pois já somos sessentões, embora em plena forma para essa faixa etária.
O Caminho dos Anjos se confunde, às vezes, com o caminho da Estrada Real, como podemos ver mais adiante...
Localiza-se em uma das regiões mais difíceis e acidentadas da Serra da Mantiqueira, ou podemos até arriscar, do Brasil, para a prática do Montain Bike, já que, os terrenos montanhosos são predominantes nessa área. Só para se ter uma idéia vejam o que conseguimos na net, sobre os terrenos do município de Aiuruoca (casa dos papagaios): Relevo: bastante movimentado, registra 40% dos terrenos acidentados, 55% de terrenos ondulados e apenas 5% de terrenos planos.
Resolvemos iniciar nosso desafio pela Cidade de Caxambu-MG, distante 306 km de São Paulo e fazer 4 (quatro) paradas, quais sejam: Espraiado do Gamarra – Baependi, Aiuruoca, Alagoa e Itamonte, cidade final do nosso roteiro. Itamonte dista 290 km de São Paulo.
A quilometragem total desse desafio foi de 141 km.
1º DIA – 29/04/10 – QUINTA-FEIRA TRECHO DE ONIBÚS: SÃO PAULO-CAXAMBÚ
TRECHO DE BIKE: CAXAMBÚ – BAEPENDI – ESPRAIADO DO GAMARRA
O desafio teve início na rodoviária do Tiete para o embarque das bikes no onibús das 07:00 h da Cometa.
Embora tenhamos comprado as passagens para Caxambú alguns dias antes e nos informado sobre o transporte de bikes no bagageiro do onibús, sendo nos dito de que não haveria problema, ao nos dirigirmos ao motorista, este já foi nos dizendo de que as bikes precisariam estar embaladas o que, retrucamos na mesma medida, dizendo que tinhamos informações diferentes.
O motorista, que parecia estar de mal com a vida, disse-nos para conversarmos com os responsáveis pela colocação das bagagens nos onibús, o que fizeram com a maior simpatia e sem dificuldades (agraciamos com r$ 10,00 pela colocação das bikes nos bagageiros).
A viagem durou aproximadamente 6 (seis) horas, pois é puro pinga-pinga, por quase todas as cidades do vale do Paraíba. Chegamos em Caxambú por volta das 14:00 h, comemos um lanche e iniciamos a pedalada até o Espraiado do Gamarra, passando por Baependi, seguindo as setas azuis, sinalização do Caminho dos Anjos.
A distância desse primeiro trecho é de 25,9 km, (as medidas foram feitas no odometro da bike do Carlito e, sem muita preocupação com a regulagem, pois não foi esse o objetivo da cicloviagem) completada em 2:13 h, acompanhando, após Baependi o Rio Gamarra e por paisagens belissímas e já sentindo o pavimento das vicinais, todo encascalhado e de dificil trânsito.
Chegamos ao Espraiado do Gamarra por volta das 17:00 h.
Ai ficamos sabendo por que esse nome: Espraiado.
É de uma natureza muito bonita. O rio gamarra, nesse local, forma um tipo de lago, com o aparecimento de praias de areia (a razão do espraiado) depois de uma pequena queda d´água. Esse local é frequentado, nos finais de semana, por moradores da região e por turistas, peregrinos e todos aqueles que amam a natureza.
O Nadinho é o responsável pelo bar-restaurante-pousada do local. Pessoa muito simpática, atenciosa e, um excelente cozinheiro, comprovado pela preparação de uns filet’s de merluza que, com cerveja (afinal também somos filhos de Deus), desceu que foi uma maravilha.
O Nadinho estava nos esperando, pois o Alexandre já tinha avisado da nossa ida. A pousada é simples, todavia muito acolhedora, o que nos possibilitou recuperar as energias para no dia seguinte partirmos para o segundo trecho e mais dificil, fisica e tecnicamente falando, do Caminho dos Anjos.
2º DIA – 30/04/10 – SEXTA-FEIRA
TRECHO DE BIKE: ESPRAIADO DO GAMARRA(BAEPENDI) A AIURUOCA
Esse trecho, conforme já divulgado, é o mais árduo e exaustivo.
O Alexandre, organizador do Caminho dos Anjos, informou-nos da criação de uma alternativa para bike, ainda não sinalizada com setas azuis, pois o caminho utilizado pelos peregrinos caminhantes, que está sinalizado, é muito difícil para pedalar.
Informou-nos, também que deixaria a planilha da alternativa para bike com o Nadinho, na pousada do Espraiado do Gamarra. Entretanto houve contratempos e a planilha não chegou às mãos do Nadinho, em tempo.
Embora o Nadinho nos explicasse de como devíamos seguir pela nova alternativa, não nos sentimos seguros e seguimos pela rota dos caminhantes.
As paisagens são maravilhosas, após os esforços descomunais de “empurrar” bike e alforges morro acima,chegamos a uma altitude máxima de 1401 m, dada a impossibilidade de pedalar em razão da inclinação – 8,24% e do cascalho (pedras retangulares e pontiagudas colocadas, acho, pela administração municipal para evitar o derrapamento e a formação de lama, quando das chuvas). As tentativas de subir sobre a bike resultavam em quase quedas, já que com o peso dos alforges no bagageiro, as pedras e a inclinação do terreno, a roda da frente levantava, impossibilitando a dirigibilidade.
Não sinalizamos, porém, achamos que subimos quase 20 km na totalidade.
Conseguiamos chegar ao topo após muitas paradas para reduzir o número de batimentos cardiacos por minuto, afinal de contas somos sessentões e a hipertensão arterial pode nos causar alguns prejuízos, embora os exercícios físicos sejam benéficos para tal mal.
Nesses “tops” nos extasiavamos com aqueles vales verdejantes, entrecortados por rios, riachos e cachoeiras, corredeiras, muitas delas, escondidas sob a flora local, pelo gado pastando e tudo iluminado pelo sol e o tenue calor do outono e no ponto mais alto (1400 m) do caminho, o Mirante Rego d´água, onde regatos corriam mansamente sobre as pedras negras. Afinal de contas este é um período dos mais favoráveis para a realização desse tipo de aventura.
O trecho é carente de fontes de abastecimento, tipo armazens, bares e, principalmente, locais para abastecimento de água, já que necessitamos muito desse líquido precioso.
Conseguimos água em uma residência ao lado de uma igreja, no topo de uma das subidas.
Nessa residência encontramos três lindas meninas que trabalhavam na confecção artesanal de cestas de casca de bambu e, que nos receberam de uma maneira muito educada.
Nesse trecho também é possível se abastecer de água, obtida em um riacho: água fresca, limpa e revigorante. Esse riacho tem sua nascente, como quase todos os mananciais dessa região, no alto das montanhas e, o que é mais incrivel, no meio das rochas.
Recomendamos não se aventurarem a “encarar” esse trecho após dias seguidos de chuvas pois, embora tenha muito cascalho, há muito pó que molhado se transforma em lama profunda.
Após 45,6 km e mais de cinco horas sobre e empurrando a bike chegamos a Aiuruoca (casa dos papagaios). O trecho tem uma quilometragem menor, mas como no final, já descendo para Aiuruoca, não prestamos atenção na sinalização e caimos na estrada de asfalto.
Essa estrada aumenta o trecho em mais alguns quilometros, embora seja um descanso para o bikers, já que é, na sua maior parte, plana e com algumas descidas. Mas acabou por perder um pouco do encanto do desafio de vencer esse trecho.
Em tempo, esse trecho, ratificando o comentado por bikers que já fizeram o Caminho dos Anjos, pode ser denominado como: amassa fezes. O trecho inteiro é usado por vacas e bois, conforme pode ser comprovado pelas fotos, que também tem que atender as suas necessidades fisiológicas.
Então tome cuidado, senão...
Chegamos a Aiuruoca por volta das 16:00 h, sujos, suados, cansados e, principalmente, famintos.
Fomos recepcionados pelo Alexandre e pela Mada, que nos esperavamos desde às duas da tarde, ansiosos para saber notícias da nova alternativa, pois seriamos os primeiros a fazê-la.
Fomos levados à pousada da Érica, onde, mais uma vez fomos atendidos com todas as honras.
Como não poderia deixar de ser, tomamos o merecido banho, almoçamos e jantamos ao mesmo tempo do restaurante 2 irmãos e “desmaiamos” na cama, para só acordar no dia seguinte para o 3º dia, ou seja, Aiuruoca a Alagoa.
3º DIA – 01/05/10 – SÁBADO
TRECHO DE BIKE: AIURUOCA A ALAGOA
A saída de Aiuruoca é tranquila e a nossa frente o imponente Pico do Papagaio e vamos acompanhando o rio.
Enfrentamos uma subida forte a uns poucos quilometros da saída da cidade, porém a única de grande dificuldade que foi amenizada pelo bom estado do piso da estrada que leva de Aiuruoca a Alagoa.
As paisagens, como sempre, fantasticas e o rio sempre ao nosso lado.
De repente chegamos a uma bifurcação que sinalizava, à esquerda para Alagoa e à direita para o Vale do Matutu, famoso pelas suas belezas naturais, por abrigar uma comunidade do Santo Daime e pelo seu astral “esotérico”.
É nesse ponto que achamos que o Alexandre falhou para com os bikers, explicamos porque: as setas azuis indicavam: para os bikers seguir pela esquerda para Alagoa e para os peregrinos caminhantes, para a direita para o Vale do Matutu.
Advinhem por onde fomos?
Pela esquerda, então não foi desta vez que visitamos tão famoso e falado vale...
Nos arrependemos amargamente.
Não que ao seguir em frente pela estrada em direção à Alagoa tenha sido ruim, pelo contrário, as características do relevo, tanquilo, e da flora, lindissima tornaram a viagem muito agradável.
No meio do trajeto, próximo ao bairro do Nogueira, atravessamos o rio, que a partir daí, ficou à nossa direita por todo o resto do caminho, passamos por diversas porteiras, supostamente, dentro de sítios e fazendas e, quase que todo o trecho pedalamos sob a sombra das árvores, incluindo muitos exemplares de araucárias, flora tipica de regiões frias e montanhosas do sul do país.
Após 30 km e 3 horas e 10 minutos de pedal chegamos a Alagoa, município situado a 1132 m de altitude, com 2900 habitantes, tendo no seu entorno montanhas que nos fazem parecer estar em uma daquelas cidades dos Alpes suiços, simplesmente, fantástica a localização desse município.
Chegamos por volta das 14:00 horas e fomos procurar um local para almoçarmos. Era 1º de maio, dia do trabalhador e feriado nacional, e a infra estrutura “gastronomica” da cidade, com exceção da Pousada do Pica-Pau, já havia encerrado o atendimento do almoço.
Nos dirigimos à Pousada do Pica-Pau e, em lá chegando, perguntamos à Juliana, filha de D. Nadir e do Sr. Sorjob, se ainda havia almoço o que muito, gentilmente nos respondeu que já haviam terminado o atendimento, mas que se não nos importavamos em comer arroz, feijão, bife, batata frita, ovo e salada que eles preparariam; era exatamente o que desejavamos, ou seja, comida trivial mineira. Aí só foi alegria...
Após o almoço fomos procurar o Abrigo de Alagoa do Caminho dos Anjos: fica na rua Nhá Chica, em cujo final da mesma encontra-se uma igreja erguida em homenagem à essa, que segundo nosso entendimento, foi uma pessoa que possibilitou a realização de muitos milagres na região e, que, ainda segundo, nos disseram está em processo de beatificação e santificação no Vaticano.
O abrigo é simples, porém limpo e acolhedor.
Na parte da tarde, como nos sentíamos cansados da viagem do 2º dia, declinamos de visitar a Cachoeira da Pedreira, uma das inúmeras cachoeiras da região que dista da cidade 7 km. Optamos por ficar caminhando pela cidade, tomar um sorvete local, comprar algumas frutas e aguardar o jantar na Pousada o Pica Pau.
O jantar foi feito em companhia dos proprietários da pousada, onde tivemos a oportunidade de ouvir várias histórias do sr. Sorjob, cujo nome de identidade é José Mendes Neto.
No caminho de volta ao Abrigo pudemos vislumbrar a noite estrelada, visão que, há muitos anos, não temos na cidade de São Paulo, uma visão inesquecível.
Dormimos o sono dos justos e acordamos em meio a uma neblina densa e uma temperatura baixa.
Nos lembramos daquele ditado: neblina que baixa é sol que racha e, não deu outra, o dia foi divino.
4º DIA – 02/05/10 – DOMINGO
TRECHO DE BIKE: ALAGOA A ITAMONTE
Fomos tomar café na Pousada do Pica Pau, ótima opção para passar a noite em Alagoa, montados em nossas bikes, pois o Abrigo está distante 1,5 km da Pousada e, debaixo daquele frio. Nada que uma pedalada de 5 minutos para espantar a friagem e para o aquecimento do pedal deste último dia.
O trecho deste dia é para fechar essa cicloviagem que achamos legal denominar de: Desafios nos Céus, porque o cicloviajante tem que enfrentar aquilo que o Marcelo Rudine do "ondepedalar" denominou de “V” invertido.
Para se chegar a Itamonte, saindo de Alagoa, temos que subir a serra, são quase 15 km de pura subida, até o topo onde, à direita está a entrada para o Pico do Garrafão, pertencente à Alagoa e a Itamonte, fica à 25km de Itamonte em uma altitude de 2.359m.
O visual durante a “escalada” é semelhante ao da Serra do Rio do Rastro em Santa Catarina, vide relatos e fotos no www.cab.com.br.
Pela precariedade da estrada, tanto na subida quanto em parte da descida, levamos duas horas e quarenta minutos para atingir o topo do “V” invertido. A utilização de máquinas de terraplanagem em toda a estrada parece que, ao invés de melhorar, pioram as condições da pista: muita pedra de todos os tipos e tamanhos.
Mas o visual daquele vale, vale todo o esforço e energias dispendidas.
O bom é que toda a subida é feita sobre a bike, à uma média de 4 km/h, ou seja, a mesma quilometragem feita por um caminhante.
Como relatamos acima, a temperatura, a hora e a claridade estavam propícias para um pedal desse tipo.
A situação da descida, até um pouco mais a frente da entrada para Fragária e outras localidades da região, estão na mesma situação da subida.
O lado positivo é que na descida todo Santo ajuda.
Na sequência pegamos a estrada já em pavimentação – as obras de pavimentação da estrada, imaginamos até Alagoa estão em andamento, com elementos de concreto sextavado e, posteriormente, em asfalto até Itamonte.
São quase 20 km de descida, situação que nos permite percorrer esse trecho em 1:30 h.
A distância total percorrida, entre Alagoa e Itamonte, no odometro da bike do Carlito, foi de 39,7 km, com um tempo de 3 horas e 42 minutos sobre a bicicleta, fechando assim o Caminho dos Anjos com 141 km de pedal.
Tanto que chegamos ao centro de Itamonte a tempo de nos hospedarmos no Hotel Thomas, na estrada, chamada de Rio-Caxambú, e de almoçarmos no restaurante do hotel, onde serve uma comida por quilo de boa qualidade.
Após o almoço, tomamos o merecido banho, digitamos as estatísticas dos odometros e fequencimetros no notebook e terminamos a tarde assistindo a vitória do Santo André sobre o Santos, este que se tornou campeão paulista de 2010.
Fechamos a noite com uma pizza, a merecida cervejinha, e um doce comprado na barraca de doces da festa que estava acontecendo na frente da matriz, cujo padroeiro da cidade é São José.
Só para lembrar, Itamonte tem uma série de características conforme podemos ver a seguir, e que vale a pena conhecer:
’O ecoturismo hoje já é uma realidade, com um relevo de quase 90% Montanhoso, 8% ondulado e somente 2 % plano, a cidade é visitada por pessoas de toda parte do país que encontram em Itamonte o cenário perfeito para a prática do montanhismo, considerado uma das 7 maravilhas do estado pela revista encontro e pela EMBRATUR o município de maior potencial ecoturístico do Estado a cidade descortina lindas paisagens a cada curva de seus 800 km de estradas vicinais dentre elas a rodovia das Flores que é a rodovia Federal mais alta do Brasil com quase 2.400 metros de Altitude. O município é cortado por dois importantes rios que são o Rio Capivari onde pode ser praticado Acqua Ride e a canoagem, além de banhos nas diversas cachoeiras encontradas no trecho denominado “Capelinha”, e o rio Aiuruoca no qual se encontra a nascente mais alta do Brasil com mais de 1.600 metros, onde se pode praticar a pesca esportiva (Fly) com magníficas trutas encontradas em suas águas geladas.
Perceberam porque chamamos esse caminho de: Desafios nos Céus.
Vale a pena fazer para: superação, meditação e reflexão...
5º DIA – 03/05/10 – SEGUNDA-FEIRA
TRECHO DE ONIBÚS: ITAMONTE A SÃO PAULO
Levantamos, tomamos café e foi possível pegar o onibús da empresa Cidade do Aço que partiu às 07:40 h chegando em Cruzeiro às 09:20 h, por um valor de R$ 8,00 a passagem, mais R$ 2,00 o transporte da bike, que foi feito sem nenhum transtorno ou chateação, diferentemente do atendimento feito pela Cometa e por seu motorista.
Compramos a passagem para São Paulo, pela Passaro Marrom, no onibús das 10:30h, pelo valor de R$ 36,75, mais R$ 2,50 de taxa de embarque, chegando em Saõ Paulo às 14:00 h, retirando nossas bikes do bagageiro, também sem nenhum sufoco.
A distância de Itamonte a São Paulo é de 290 km.
Até uma outra cicloviagem...
Parabens pela viagem e pelo relato... muito show!
Não deixe de deixar seu comentário também no http://www.bemvindocicloturista.com.br, pois sua opinião é muito importante e pode ajudar outros cicloturistas.
CicloAbraços!
ja pedalei nestas bandas e tbem numa cicloviagem, mas fiz de 4 dias e em parte de um deles apenas fizemos o mesmo percurso: Airuoca ate Alagoa, mas passamos sim pelo Vale do Matutu. Show de bola.